Médicos obrigados a emigrar para se tornarem especialistas. Será que voltam?

Ainda se recorda da aula em que o professor Sobrinho Simões alertou os estudantes que enchiam a sala da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto para a necessidade de começarem a pensar no futuro, porque a era do emprego certo estava a chegar ao fim. Naquela altura, Filipa Rocha desvalorizou. Afinal, tinha optado pelo exigente curso de medicina porque, óptima aluna no secundário (média de 18,53 valores) e livre para escolher qualquer área, este acabava por ser o que oferecia mais saídas profissionais. “Também gostava muito de engenharia, de artes. Mas depois pensei: OK, posso sempre ser artista enquanto sou médica.”

Agora, aos 25 anos, na hora de tomar uma das decisões mais complicadas da sua vida — a área em que vai especializar-se —, a médica de Paços de Ferreira admite que o cenário é “um pouco aterrador”. Apesar da invejável pontuação de 70% obtida na prova nacional de seriação, Filipa foi forçada a desistir de cirurgia pediátrica — há apenas quatro vagas em todo o país — e pondera candidatar-se a cirurgia geral porque quer fazer o internato da especialidade em Portugal.

Com planos diferentes, José Quesado, 24 anos, foi planeando o futuro e já tem tudo programado: para o ano vai para a Bélgica fazer o internato de anestesiologia, uma das especialidades mais cobiçadas e inacessíveis em Portugal. No final do secundário, José também podia ter escolhido a área que muito bem entendesse, engenharia aerospacial, astronomia, física, matemática. Mas medicina prevaleceu. “É um curso abrangente e com boas perspectivas profissionais”, explica o jovem de Barcelos, que se preparou para a temida prova de seriação durante uns escassos quatro meses, ao contrário dos colegas que, ao longo de um duro e longo ano, queimaram as pestanas a decorar cinco capítulos do Harrison (da obra Harrison´s Principles of Internal Medicine).

O Harrison é o obsoleto teste de 100 perguntas de escolha múltipla que serve para ordenar o cada vez maior número de candidatos a vagas de especialidade nos hospitais e nos centros de saúde portugueses. Com a perspectiva da Bélgica sempre em mente — só para se especializar, porque está nos seus planos regressar a Portugal —, José preferiu investir num curso de francês.

A escolha de José Quesado está longe de ser pouco comum. Há cada vez mais jovens médicos portugueses que saem do país para se especializarem no estrangeiro. As contas feitas pela Ordem dos Médicos (OM) do Norte, que escalpelizou os motivos de emigração, indicam que quase um terço dos que abalaram nos últimos quatro anos (113 em 351) estão a especializar-se em vários países, sobretudo europeus. No final, ninguém sabe se voltarão ou não a Portugal.

"Hoje pensaria duas vezes"

De ano para ano, para os jovens médicos que terminam o internato de ano comum (o primeiro ano de formação pós-graduada em que fazem de tudo um pouco nas unidades de saúde) torna-se cada vez mais difícil aceder a uma vaga para a sua especialidade de eleição ou mesmo a uma vaga, seja qual for. No ano passado, pela primeira vez, 114 médicos não conseguiram ter lugar num hospital ou centro de saúde para começarem a formação numa especialidade.

Este ano as previsões são mais negras: mais de cinco centenas arriscam-se a ficar sem vaga, porque há 2162 candidatos e as capacidades formativas indicadas pela OM em hospitais e centros de saúde ficam-se por 1651. Centenas de jovens arriscam-se, assim, a permanecer com o estatuto de médicos indiferenciados. Podem perder um ano e voltar a fazer o exame, mas para muitos a alternativa é emigrarem.

“É a nova forma de emigração. Depois da emigração dos médicos especialistas, agora são os jovens diplomados que estão a sair”, descreve o presidente da secção do Centro da OM, Carlos Cortes. O problema, frisam os responsáveis da OM, é que ir para o estrangeiro deixa de ser uma opção pessoal para ser uma necessidade.

“Depois de entrarem em medicina com uma nota altíssima, de fazerem o curso e de o acabarem com boas notas, ficarem sem especialidade é dramático. Hoje é preciso ser-se especialista para praticar uma medicina de qualidade”, lamenta Miguel Guimarães, que preside à Ordem dos Médicos/Norte. Acreditando que o número de excluídos acabe por ser inferior, porque muitos candidatos desistem e repetem o exame, Miguel Guimarães defende que “o Governo tem a obrigação de dar uma resposta, porque é quem decide as vagas nas faculdades de medicina”.

Com o crescimento exponencial dos candidatos ao longo dos anos — aos médicos que saem em cada ano das faculdades há ainda que somar entre 200 a 300 portugueses formados em universidades no estrangeiro, como Espanha e a República Checa, que regressam para se habilitar, lado a lado com os outros, a uma vaga na especialidade em Portugal —, a entrada na formação pós-graduada vai-se afunilando.

“Se tivesse 18 anos agora, pensaria duas vezes antes de escolher medicina. Há outras profissões bem remuneradas e reconhecidas”, reflecte Edson Oliveira, presidente do Conselho Nacional do Médico Interno, que está a fazer o internato de neurocirurgia num grande hospital de Lisboa e garante que já começa a haver especialistas em excesso nalgumas áreas até há pouco tempo deficitárias, como pediatria e mesmo neurocirurgia.

Se nada for feito, o crescimento dos médicos sem especialidade vai ser exponencial, avisa. Ao aumento do numerus clausus somam-se outros factores que vieram agravar esta contabilidade. Desde 2007, as faculdades começaram a disponibilizar uma percentagem do total de vagas a licenciados em outras áreas (a percentagem passou de 5% nessa altura para 15% em 2011/2012). Isto, somado a mais um contingente especial — que inclui portadores de deficiência, militares, filhos de diplomatas, atletas de alta competição, entre outros —, faz com que o número final dispare.

“Os médicos precisam de formação complementar. É grave que o Estado deixe que estes médicos cheguem ao fim do curso e não sirvam para nada”, considera Alberto Amaral, presidente da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior. Alberto Amaral defende, em simultâneo, a revisão das idoneidades formativas concedidas pela OM. “É preciso criar outras carreiras, de investigação, nos laboratórios”, propõe. Tudo para evitar que se crie uma geração de médicos indiferenciados em Portugal.